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Faltavam 20 minutos. Precisava correr. No ponto de ônibus, uma senhora estendia a mão para quem passava, alegando sofrer de uma doença de fome, ou alguma coisa assim. Passei por ela, bem longe."Não tenho dinheiro!". Precisava correr, sabe? O motorista notou minha pressa e resolveu esperar. Que sorte a minha!
"Obrigada!", saiu da boca educada.
Vasculhei meu bolso em busca do trocado da passagem. A cobradora aguardava. Achei. Quando lhe entreguei o dinheiro, percebi que um garoto sentado na janela me observava atentamente. Ao seu lado, a mãe lia num curioso interesse o resumo imprevisível da novela.
Achei melhor sentar de costas para ele. Mas o vidro à minha frente, que limita o espaço do motorista, denunciava uns olhos atentos. "É feio ficar olhando!" Ninguém o ensinara? Por certo a mãe, quando não estava lendo os resumos, assistia às novelas. E o garoto virou o que é.
Decidi pensar em alguma outra coisa, desviar a atenção. Lembrei do compromisso daqui 10 minutos. Lembrei das compras do supermercado. Lembrei da senhora na calçada. Será que o garoto teria visto a cena? Será que ele teria presenciado meu crime e agora me condenava? Que azar o meu!
Cheguei ao meu destino. Levantei-me e fui até a porta. Mesmo de costas, eu sabia, ele ainda me olhava. Desci do ônibus e um senhor cego sacudia uma latinha de metal. "Uma esmolinha pro ceguinho!". Arranquei do meu bolso umas moedas que me pesavam de obrigação, daquelas que aliviam a consciência. "Deus te abençõe!"...
O ônibus partiu e eu arrisquei uma última olhada para a janela. É, o garoto tinha aprendido alguma coisa.
criado por mitras
21:14:28