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Saí de casa logo de manhã. Enquanto caminhava, percebi que à minha frente, ia um rapaz que andava lentamente. Não pareciam passos pesados de sofrimento ou daqueles curiosos. Eram apenas lentos.
Então, dos bolsos do rapaz, começaram a cair "coisas". De onde eu estava, não dava para definir ao certo o que eram, mas tinham tamanhos e cores diferentes. Apesar de fazerem barulho quando alcançavam o chão, alguns agradáveis outros nem tanto, o rapaz parecia não notar o que estava acontecendo. Resolvi me aproximar um pouco mais para ver do que se tratava. Entendi. Não era que o rapaz não estivesse percebendo. Ele estava ignorando.
As coisas eram palavras. Palavras de todos os temas e texturas. O rapaz estava se desfazendo daquilo, sem apresentar nenhum remorso ou um pingo sequer de apego. E quando estavam completamente vazios, ele continuava andando lentamente, mas dessa vez, eram passos lentos de "vida nova". E eu...os segui.

" A palma da mão pra cima, na altura do peito. Agora, encurva as costas. Faz cara de coitada. Assim não, fia, assim ó." Ensinava meu mestre imaginário, lutando para me inserir nas artes dramáticas.
Dizia que o mercado de trabalho estava saturado inclusive para os pedintes. "Nesse ramo, só ganha esmola o mais desgraçado! Se você tiver um braço a menos, você está na frente. Se não tiver, arranje-se com a cara de misericórdia"
E eu queria só um estágio...
"Meu Deus! Que cabelo é esse? Não há creme, gel, reparador de pontas, secador ou qualquer tecnologia cosmética que resolva!", "E essa espinha estrategicamente colocada no meu nariz? ( o qual, aliás, é surpreendentemente desproporcional ao meu rosto pálido e redondo!)", "A barriga não tem jeito! É possível que eu morra e ela continue aí, perpétua e infeliz!", "Sem contar que preciso urgentemente fazer minha unha e me depilar! É imprescindível para eu reconquistar minha auto-estima!"
"Ai Lu, você deve estar me achando uma fútil! Mas é que você me pegou num momento desregulado...TPM! Eu não sou assim, viu? Eu dou esmola e leio livros! Estou lendo um do Paulo Coelho! aquele que a Madonna A-D-O-R-A!"
Conversa ouvida nos corredores de uma universidade federal pela intrusa que vos escreve. O drama da TPM é compreensível. Mas não há distúrbio hormonal que justifique ler Paulo Coelho.
O ensino público brasileiro está moribundo, minha gente!