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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2007

16.09.07

Picles e nachos

Dos 300 milhões de habitantes dos Estados Unidos, 14 milhões não falam inglês. Não falam mesmo. E o mais curioso é que eles não fazem a menor questão de aprender a língua natural do país em que moram. Estabelecem-se ali, inserem seus “tacos” e seu “hablar” e as coisas entram em conformidade. Ou deveriam.
Em um dos dias de trabalho nos Estados Unidos, alguém chegou e me fez seu pedido:
“Hey chica, yo quiero algunos nachos com jalapeños.”
Balbuciei alguma coisa numa tentativa ridícula de harmonizar de forma inteligível o inglês, o português e minha noção intuitiva de espanhol. Esperava que o mexicano entendesse que, na verdade, eu não havia entendido coisa alguma.
Ele mostrou sua confusão numa expressão horrorosa e seguiu com uma seqüência “anaeróbica” de palavras. A rapidez era impressionante.
Concentrei-me e, naquela esperança tola de que separando as sílabas o outro aprenda a sua língua, disse:
“I-do-not-un-ders-tand-es-pa-nish.”
O mexicano, com um cuidado menor que o meu, soltou:
“Yo no entiendo inglés”.
Fiquei parada olhando para o mexicano. Ele me devolveu o olhar que, me pareceu, como um olhar previamente elaborado e padronizado que deveria ser emitido aos petulantes que insinuassem preconceito contra latinos. Ele observou minha identificação e, associando com algumas das palavras que eu tinha dito no nosso primeiro contato, concluiu que eu também era latina. Foi então que ele sugeriu o esquema de sinais.
Como eu trabalhava em uma rede de fast-food em que o cliente monta seu próprio sanduíche, a tática “você-aponta-que-eu-pego” foi muito eficaz. Depois de meia hora, entreguei ao mexicano seu sanduíche lotado de picles e seus nachos apimentados. Ele virou para mim, e do alto de sua superioridade (afinal, fora ele quem havia proposto o esquema de sinais) e num sorriso de “viva la revolución”, insistiu no espanhol:
“Gracias”
E eu, simpaticamente, devolvi:
“You’re welcome!”
O mexicano fechou a cara em reprovação e saiu.
Eu e ele nos Estados Unidos. Não deveria ter falado em inglês.
O cliente tem sempre razão!

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  • Postado em 19:07:41

04.09.07

Mendicância

" A palma da mão pra cima, na altura do peito. Agora, encurva as costas. Faz cara de coitada. Assim não, fia, assim ó." Ensinava meu mestre imaginário, lutando para me inserir nas artes dramáticas.

Dizia que o mercado de trabalho estava saturado inclusive para os pedintes. "Nesse ramo, só ganha esmola o mais desgraçado! Se você tiver um braço a menos, você está na frente. Se não tiver, arranje-se com a cara de misericórdia"

E eu queria só um estágio...

  • criado por  mitras criado por mitras
  • Postado em 19:34:23

03.09.07

No leito de morte

"Meu Deus! Que cabelo é esse? Não há creme, gel, reparador de pontas, secador ou qualquer tecnologia cosmética que resolva!", "E essa espinha estrategicamente colocada no meu nariz? ( o qual, aliás, é surpreendentemente desproporcional ao meu rosto pálido e redondo!)", "A barriga não tem jeito! É possível que eu morra e ela continue aí, perpétua e infeliz!", "Sem contar que preciso urgentemente fazer minha unha e me depilar! É imprescindível para eu reconquistar minha auto-estima!"

"Ai Lu, você deve estar me achando uma fútil! Mas é que você me pegou num momento desregulado...TPM! Eu não sou assim, viu? Eu dou esmola e leio livros! Estou lendo um do Paulo Coelho! aquele que a Madonna A-D-O-R-A!"

Conversa ouvida nos corredores de uma universidade federal pela intrusa que vos escreve. O drama da TPM é compreensível. Mas não há distúrbio hormonal que justifique ler Paulo Coelho.

O ensino público brasileiro está moribundo, minha gente!

  • criado por  mitras criado por mitras
  • Postado em 21:42:58