
É fato. O espírito natalino já está nas vitrines das lojas, na neve dos pinheiros artificiais, no “bom velhinho” contratado para tirar foto com crianças nos shoppings. Os dias estão mais suportáveis e as noites mais iluminadas.
Os perus começam a sair das prateleiras de congelados dos supermercados para comporem, juntamente com as frutas caras e raras de fim de ano, a ceia do Natal. As castanhas, aquelas que deveriam ser consumidas mais regularmente por sua capacidade de aumentar a taxa do colesterol “bom”, são compradas aos montes.
As guirlandas nas portas, as velas nas mesas, o presépio no canto da sala, o sonoro “I wish you a Merry Christmas” para contextualizar o ambiente e se nos esforçamos, um “Ho ho ho” pode ser ouvido ao longe.Tudo é estrategicamente arranjado para criar um ar de renovação, de dias melhores.
Repare: é nessa época do ano que as pessoas ficam essencialmente melhores. Elas não presenteiam umas as outras por terem se portado bem ou só porque o capitalismo selvagem investiu profundamente nessa data a fim de promover o comércio. Os Correios não recebem os presentes em resposta às várias cartinhas de crianças carentes por mera obrigação social.
As pessoas, ou a maioria delas, querem celebrar os bons sentimentos. Querem aproveitar o tempo em que temos licença para esquecer aquilo que precisamos lembrar diariamente e que nos limita à felicidade instantânea. Aproveitar o tempo em que temos permissão para levar a vida menos a sério e convidar a esperança e o altruísmo para comemorar o que está por vir.

Saí de casa logo de manhã. Enquanto caminhava, percebi que à minha frente, ia um rapaz que andava lentamente. Não pareciam passos pesados de sofrimento ou daqueles curiosos. Eram apenas lentos.
Então, dos bolsos do rapaz, começaram a cair "coisas". De onde eu estava, não dava para definir ao certo o que eram, mas tinham tamanhos e cores diferentes. Apesar de fazerem barulho quando alcançavam o chão, alguns agradáveis outros nem tanto, o rapaz parecia não notar o que estava acontecendo. Resolvi me aproximar um pouco mais para ver do que se tratava. Entendi. Não era que o rapaz não estivesse percebendo. Ele estava ignorando.
As coisas eram palavras. Palavras de todos os temas e texturas. O rapaz estava se desfazendo daquilo, sem apresentar nenhum remorso ou um pingo sequer de apego. E quando estavam completamente vazios, ele continuava andando lentamente, mas dessa vez, eram passos lentos de "vida nova". E eu...os segui.

" A palma da mão pra cima, na altura do peito. Agora, encurva as costas. Faz cara de coitada. Assim não, fia, assim ó." Ensinava meu mestre imaginário, lutando para me inserir nas artes dramáticas.
Dizia que o mercado de trabalho estava saturado inclusive para os pedintes. "Nesse ramo, só ganha esmola o mais desgraçado! Se você tiver um braço a menos, você está na frente. Se não tiver, arranje-se com a cara de misericórdia"
E eu queria só um estágio...